As histórias
de atrocidades cometidas pelo jornalismo contra a sociedade se repetem
no seu modo operante: tem como personagens principais os mais humildes.
Os poderosos se defendem com eficiência da fúria tresloucada
da imprensa. Gente importante deste Brasil, seja os que estão
sentados em cima de uma montanha de dinheiro e/ou estão incrustados
no ´puder´, tem eficientes meios para acalmar os veículos
de comunicação e, se precisar, usar os seus bons advogados.
Acredito que um dos sentimentos da proposta do Conselho Federal de Jornalismo
(CFJ) contemple esse aspecto. É necessário fornecer instrumentos
para que a maioria da população do país, simples
e honesta, consiga se defender dos excessos, dos preconceitos, da imposição
de padrões e, principalmente, do cinismo dos grandes veículos
de comunicação, que se acham detentores da verdade atual
e histórica. Vejamos o caso do livro sobre os 35 anos do Jornal
Nacional. Lá, Leonel Brizola virou estadista e a campanha por
eleições diretas teve uma cobertura digna da Olimpíada
de Atenas. A Rede Globo quer reescrever a história. Mas, as edições
das matérias realizadas pela própria emissora desmentem
o que está escrito no livro de autopromoção.
Não confio no texto da proposta de criação do CFJ
que tramita no Congresso Nacional. Está provado que o material
original da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)
foi alterado no Planalto, um pessoal que gosta do pensamento único
e tem dificuldades de conviver numa sociedade plural.
Entretanto, acredito que a discussão sobre os limites da atuação
da imprensa já é um bom avanço em relação
ao que vivemos hoje: faço o que bem entendo (a grande imprensa)
e quem for atingido e não gostar, que vá procurar o Bispo.
Nesse caso, a Justiça, lenta, custosa, despreparada para lidar
com questões que envolvem complexos meios de comunicação
(como a Internet) e, principalmente, aliada a muitos barões da
imprensa brasileira.
Para pensar como seria se tivéssemos algum tipo de regulamentação
profissional, vejamos o caso dos sete assassinatos de mendigos, ocorridos
na cidade de São Paulo, há mais de um mês. A cobertura
jornalística é exemplar. Os repórteres tiveram
o cuidado de pesquisar fatos anteriores, obter estudos de universidades,
ouvir policiais, moradores de rua, Ongs engajadas com o povo de rua,
enfim, cercar o assunto por todos os lados. Já os editores balancearam
bem os seus telejornais, radiojornais, páginas de impressos e
de Internet, não julgando e culpando alguém pelo ocorrido.
O cuidado jornalístico com esse episódio é case
para aulas de jornalismo.
Mas o que aconteceu? Por que o assunto não foi coberto como o
da Escola Base? A resposta mas simples seria que a imprensa aprendeu
muito desde 28 de março de 1994, quando duas mães queixaram-se
na delegacia do bairro do Cambuci, em São Paulo, de que seus
filhos de quatro e cinco anos estavam sendo molestados sexualmente na
escola. A mídia deu a versão do delegado Edélcio
Lemos e os acusados, finalizado o inquérito policial, foram declarados
inocentes. Eles foram mortos moralmente pela imprensa, sem direito à
defesa nas telinhas, nos radinhos e páginas de jornais e revistas.
Exceto, o falecido Diário Popular, que não acreditou na
história e deveria ganhar o Prêmio Esso por não
tê-la publicado.
Afinal, diriam os donos do conglomerado de midiático brasileiro,
são dez anos do paradigmático caso, portanto, a imprensa,
agora, não erra mais. Gostaria muito que isso fosse verdade.
A imprensa continua a matar moralmente muita gente. E pessoas indefesas,
humildes. Em tese, na essência do jornalismo, os primeiros a serem
defendidos.
A cobertura da morte dos mendigos tem uma redoma sobre a imprensa, que
é a Lei Eleitoral. Com o temor de que o caso pudesse virar munição
na briga eleitoral, os responsáveis pela cobertura estão
cautelosos. Qualquer deslize, incriminando antecipadamente alguém,
seria um desastre.
A candidata pelo PT à prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy,
adoraria ver a confirmação que Policiais Militares (força
policial sob responsabilidade do Governo Estadual) estivessem envolvidos
no caso (há dois policiais militares presos, mas ainda não
há provas definitivas, apenas reconhecimento de testemunhas).
Já Serra (PSDB) também postulante a prefeito, e principal
concorrente, sentiria felicidade eleitoral se os acusados fossem da
Guarda Municipal, pertencentes ao quadro de funcionários da Prefeitura,
portanto, sob a batuta de Marta Suplicy.
Para não servir de instrumento para uma ou outra candidatura,
a imprensa tem tomado cuidados. Porém, a preocupação
não é com que tenhamos uma eleição limpa
e que o resultado seja reflexo da vontade popular. A mídia tem
medo é da Justiça Eleitoral. Essa, ultimamente, não
titubeia e pune quem não faz um jornalismo responsável.
Vejamos a notícia dada pelos repórteres do Globo, Paulo
Marqueiro e Rodrigo Taves: “A Justiça Eleitoral tirou a TV Record
do ar por 22 minutos, a partir das 23h06m de ontem (20 de setembro).
Atendendo a representação do PT, o juiz Luiz Márcio
Victor Alves Pereira, do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), entendeu
que o programa exibido pela emissora sobre o projeto Fazenda Nova Canaã
favorecia o candidato do PL a prefeito do Rio, Marcelo Crivella. A Record
é ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, da qual
o pastor Crivella, sobrinho de Edir Macedo, é um dos principais
líderes.”
A Justiça Eleitoral está fazendo o que um CFJ faria. Mas,
para que isso aconteça no futuro, após muito debate com
a sociedade organizada, o Conselho teria que ser bem implantado, democrático
e com o propósito de regulamentar as atividades jornalísticas
e não de orientá-las.
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