| Tecnófilos
e Tecnófobos
NELSON ASCHER
Publicado na Folha de S. Paulo, página E8, 19.04.2004
www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1904200413.htm
"As pessoas", já disse alguém, "dividem-se
em dois grupos: o dos que dividem as pessoas em dois grupos e o dos que
não o fazem -eu, evidentemente, pertenço ao segundo grupo".
Quanto a mim, não apenas assino embaixo, como também classifico
a intelectualidade em duas metades desiguais: a dos tecnófilos
e a dos tecnófobos. Hoje em dia esta parece ser substancialmente
maior do que aquela.
O tecnófobo, além de ter relutado anos antes de adquirir
seu primeiro computador, ainda o utiliza a contragosto e, se pudesse,
retornaria logo à pena de ganso, ao tinteiro e a sua caligrafia
de médico. Ele ou ela não simpatiza com a televisão,
desdenha em especial a MTV e prefere assistir a seus filmes, sempre de
arte e geralmente europeus ou iranianos, no cinema.
Nenhum tecnófobo faz "download" de música pela
internet, tampouco a ouve num leitor de MP3 e, enquanto os jovens lidam
mal com um controle remoto, os mais idosos nem sequer tiraram carteira
de motorista.
O tecnófilo, por sua vez, bate fotos digitais que envia aos amigos
anexadas a seus e-mails, já reassistiu às séries
completas de "Duro de Matar" e "Máquina Mortífera"
em DVD, sabe que Carrie Bradshaw é a protagonista de "Sex
and the City", que Phoebe, Rachel e Monica são personagens
de "Friends" e deixa alegremente de lado a discussão
sobre seu último artigo para discorrer sobre as vantagens ou desvantagens
relativas do PC ou do Macintosh.
Obviamente estou me referindo a tipos ideais. No mundo real, tudo isso
se apresenta mesclado e como tendências ou inclinações
de cada qual. Quanto maior, porém, o número de intelectuais
examinados, mais fácil é dividir o grosso deles nas duas
categorias acima. O interessante é que pertencer a uma ou outra
decorre menos de escolhas conscientes que de algo profundo e imutável:
o temperamento.
Sabe-se que há indícios que permitem deduzir certas características.
Um dos exemplos mais conhecidos é o seguinte: quanto mais bela
uma mulher, maior a probabilidade de que seu marido seja rico e, quanto
mais rico um homem, tão mais provável que sua mulher seja
bonita. De forma semelhante, deve haver alguma espécie de correlação
entre, digamos, o amor ou desamor pelo computador e o texto que seu usuário
produz.
Quem tenha aderido entusiasticamente ao computador e se conectado logo
que possível à web, quem use o Google várias vezes
por dia e recorra ao IMDb (Internet Movie Database) para tirar suas dúvidas
cinematográficas é alguém mais propenso a apreciar
a cultura de massas e menos propenso seja a choramingar por causa de um
suposto emburrecimento de seus concidadãos, seja a atribuí-lo
aos meios de comunicação. Por outro lado, quem quer que
tenha se agarrado enquanto pôde à sua máquina de escrever
quase certamente se revelará um pessimista que, a seu redor, nada
vê, exceto uma irreversível decadência manipulada pela
indústria da cultura.
Se os tecnófilos gravitam em torno do centro político sem
se afastarem muito rumo à esquerda ou direita, os tecnófobos
mais renhidos habitam os extremos destas. Na hora de falar sobre televisão
ou Hollywood, as opiniões dos neonazistas e dos antiglobalistas
praticamente se confundem. Nenhum deles acredita que o que está
sendo exibido é aquilo que o público quer de fato ver ou
caso, por uma infelicidade, corresponda ao gosto da platéia em
questão, então há algo de muito errado acontecendo,
pois não é assim que as coisas deveriam ser.
Os tecnófobos paradigmáticos apareceram pouco depois da
invenção da máquina a vapor, no começo da
Revolução Industrial. Inspirados pela figura talvez mítica
de um trabalhador revoltado, Ned Ludd, eles se autodenominavam Ludditas
e eram artesãos que, vendo seus ofícios e modo de vida ameaçados
pelas inovações tecnológicas, dedicaram-se a destruir
máquinas têxteis e agrícolas na Inglaterra da segunda
década do século 19.
Embora o movimento acabasse apropriado pela esquerda, o impulso que o
movia não se diferenciava daquele que deu origem ao conservadorismo
romântico, uma vez que ambos se apegavam a um passado idílico
e, para todos os efeitos, condenado.
Os pais da esquerda contemporânea, de Marx e Engels a Lênin
e Trótski, pendiam para a tecnofilia e, quando chegavam ao poder,
empenhavam-se em construir indústrias pesadas e poluentes. Acontece
que os netos, desde os que se insurgem contra a rede McDonald's até
os que rejeitam os alimentos geneticamente modificados chamando-os de
"Frankenfood" (aliás, a autora de "Frankenstein",
Mary Shelley, e seu marido poeta apoiaram os Ludditas originais), identificam-se
de preferência com os avós. George W. Bush e os verdes europeus
podem se detestar, mas, no que diz respeito à clonagem de seres
humanos, não há grande discordância entre eles.
Nem é acidental, portanto, que os intelectuais em sua maioria acompanhem
o surgimento ininterrupto de novos "hardwares" e "softwares",
"gadgets", aparelhos etc. com desconfiança.
Eles que, durante os anos de escola, tiravam notas melhores em português
do que em matemática, chegados à idade adulta se consideram
os guardiães do legado cultural e não adianta dizer-lhes,
por exemplo, que toda a música erudita ocidental pode agora ser
adquirida a preços cada vez mais acessíveis, porque, se
tal milagre render algum dividendo econômico, ele se torna de certo
modo pecaminoso.
Se defender uma escala antimercantil de valores lisonjeia o ego de um
intelectual, tal ação o aparta de um público crescente,
acarretando uma perda de influência pela qual ele só pode
culpar a si mesmo.
|