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Entraves
para consolidação dos conceitos digitais
Prof.Dr.
Walter Teixeira Lima Junior
UniFiam/Faam – São Paulo
Resumo
Este paper está
embasado em uma parte da tese de doutorado “Mídia digital: o vigor
das práticas jornalísticas em um novo espaço”, que
versa sobre as modificações ocorridas nas práticas
jornalísticas a partir da introdução de tecnologias
digitais online no processo para se obter, arquivar, indexar e recuperar
informações (texto, imagens estáticas, áudio,
vídeo e animação), processando-as conforme a necessidade
editorial.
Dentro deste processo, o estudo identifica uma grande dificuldade em consolidar
os conceitos digitais nas práticas jornalísticas e no ensino
do jornalismo.
Palavras-chave:
jornalismo, ensino, tecnologia,
Introdução
Um dos grandes entraves
para o avanço de uma cultura online na produção e
consumo de notícias via novas mídias digitais é a
falta de massa crítica para consolidação de novos
conceitos surgidos a partir da denominada “Revolução Digital”..
A massa crítica, nesse caso, se refere à capacidade de absorção
pela sociedade de um novo meio de comunicação, tornando-o
rentável, a ponto de se auto-sustentar, gerando absorção
de conceitos e produtos.
É bom ressaltar que este processo foi comum a todos os veículos
de comunicação de massa. Se nos voltarmos para a história
do rádio, por exemplo, veremos que ele começou no Brasil
com as chamadas rádios-clubes, conduzidas então por amantes
do veículo e que funcionavam como um clube, com acesso a poucos.
Portanto, só com o passar dos anos o rádio passou a ser
considerado um veículo para muitos, um veículo de comunicação
de massas.
Por esse processo também está passando a comunicação
digital. As questões econômicas, como custo de computadores
e conexões, até a falta de entendimento sobre como funciona
o meio, estão atrasando o desenvolvimento de veículos digitais
e limitando suas possibilidades de produção de conteúdo
digital. Este período talvez seja importante para que exista
o treinamento dos
jornalistas e dos usuários, emergindo como uma pré-condição
para o acesso com proveito das fontes no ciberespaço devido às
particularidades das técnicas de apuração e das funções
desempenhadas pelos diversos atores sociais nas redes telemáticas.
Para desenvolver o trabalho jornalístico em um entorno cada vez
mais amplo e complexo como o mundo digital tanto o profissional quanto
o usuário das redes telemáticas devem dominar técnicas
adequadas para avaliar dados muito diversos, com valor desigual e propósitos
distintos que cada cidadão pode publicar sem qualquer tipo de restrição
prévia.
Filosoficamente, o
novo programa USC's Annenberg School for Communication (EUA) reconhece
que não somente a indústria está se movendo, mas
que os nossos leitores, telespectadores e usuários também,
diz Michael Parks, antigo editor do Los Angeles Times que agora é
diretor da Annenberg School.
Ele acredita que a indústria de mídia está lutando
com as mudanças de hábitos dos consumidores de notícias.
“Eles estão aumentando incrivelmente a obtenção de
notícias via internet ou combinando 'velha' mídia com a
internet.”
No mesmo artigo, Outing deixa em aberto uma questão muito importante.
Ele pergunta se os estudantes podem realmente se sobressairem a contento
nas tarefas para três mídias muito diferentes? “Isso não
é muito para apenas um ser humano? Esse não é o ponto.
Será raro ter um profissional com uma ótima atuação
como repórter de um jornal impresso e ser um correspondente de
TV.”
Também é necessário registrar que, quando um novo
processo de produção de notícias é iniciado,
há muitas dificuldades para equalizar problemas entre capital e
trabalho. Isso quer dizer que, como não há parâmetros
anteriormente definidos e consolidados, o capital, na maioria dos casos,
força o trabalho a realizar tarefas que suplantam as que eram realizadas
anteriormente, sem a implantação da tecnologia. VIANNA (1992,
p. 131), em sua pesquisa pioneira sobre a informatização
da imprensa brasileira, cita na parte das entrevistas com os dirigentes
de jornais impressos que eles acreditavam ser positivo
a especialização
de mão-de-obra como uma valorização do profissional,
pois mudanças na estrutura ocupacional, dando autonomia aos jornalistas,
aumentam, por outro lado, a satisfação pelo trabalho.
A pesquisa aplicada aos jornalistas, no entanto, não demonstrou
exatamente isso: os profissionais concordam que o computador oferece maiores
recursos para o desenvolvimento do trabalho, mas revelam sobre um controle
maior por parte de seus dirigentes. Ao mesmo tempo, expressam que o aperfeiçoamento
profissional agora cobrado é quase sempre dissociado da melhoria
de salário. A habilidade para manipular o computador deve ser conseguida
a qualquer custo, uma condição essencial para a manutenção
do emprego.
O artigo Tecnologias ainda não beneficiam jornalistas, de Everaldo
Gouveia, no Jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais
do Estado de São Paulo, n. 177, de setembro de 1996, aborda a mesma
linha da pesquisa de VIANNA (1992). O então presidente da entidade
escreveu que em termos de melhores condições de trabalho
e de salário, as novas tecnologias utilizadas pela imprensa, na
grande maioria dos casos, não estavam beneficiando o jornalista.
Ao contrário
de tendências verificadas em outros países, em vez de o trabalhador
ganhar horas de descanso, propiciadas pelas novas tecnologias, no Brasil
aumenta a sua carga de horário e trabalho.
Com a utilização do computador, hoje considerado indispensável
nas redações, há quem ache que essa máquina
pode fazer jornal sem jornalistas. Na verdade, o fundamental é
o trabalho do profissional. Sem ele é impossível fazer jornais,
revistas, televisão e rádio - para ficar apenas na nossa
seara.
No ensino do jornalismo
As críticas às faculdades de jornalismo no Brasil não
são poucas. Mais recentemente, o caloroso debate sobre a necessidade
do Provão nas instituições de ensino revelou que
há muitos problemas a serem resolvidos, não só na
parte de infra-estrutura física como na elaboração
de grades curriculares, conteúdos programáticos e qualificação
adequada dos docentes.
Dentro do meio acadêmico há celeumas intermináveis.
Entre elas, qual é a função de um curso de jornalismo?
Existem correntes que defendem uma formação para o mercado
e outra que pensa em formar para que se mude o mercado, ou ainda uma formação
eminentemente humanística, além de outras correntes menores.
Porém, é bom lembrar em que mundo comunicacional estamos.
As transformações estão ocorrendo velozmente devido
à fusão da informática com as telecomunicações,
que transportam o conteúdo informativo.
Num mundo eletronicamente
globalizado, onde textos e imagens digitalizadas viajam vertiginosamente
em torno do planeta através dos satélites e das fibras óticas,
sendo "decodificadas" na outra ponta através das mais
variáveis interfaces que tanto podem ser um minúsculo telefone
celular, como uma enorme impressora de jornal comandada a distância,
ou ainda um monitor de TV ou de computador, ou um aparelho de rádio,
pergunta-se qual o espaço que sobra, afinal, para o jornalista,
para o profissional encarregado de produzir, processar e emitir o discurso?
Entre o que está
acontecendo no mundo real e o que é ensinado nos cursos de jornalismo
há uma distância. Essa visão é corroborada
por CAMPOS (2001, p.3) em um artigo publicado no website do Observatório
de Imprensa. O seu argumento se baseia na atração cada vez
maior de alunos de jornalismo que desejam trabalhar com jornalismo online,
apesar da cultura vigente ainda ser por práticas empregadas nos
veículos tradicionais.
Já no primeiro
ano, os futuros comunicadores criam sites de jornalismo online e, antes
do quarto ano, já estão trabalhando regularmente para algum
portal de internet, o que, naturalmente, significa um novo desafio para
o próprio sistema de ensino superior, principalmente na área
pública onde o sucateamento das instalações nem sempre
permite ao professor contar com os recursos de software disponíveis
no mercado. Surge, então, um hiato entre ensino e aprendizado que
precisa ser preenchido, inclusive através da requalificação
e atualização profissionais.
Esse fenômeno
de distanciamento entre o ensino do jornalismo e o que é realizado
no mercado, do desejo dos alunos e as grades curriculares, também
é constatado pela professora e pesquisadora Elizabeth Saad no seu
artigo sobre o jornalista na sociedade da informação
Um fato significativo
que vemos adiante do cenário até aqui apresentado é
a diferença de tempos e ritmos entre o que ocorre na universidade
e o que ocorre no mercado. No caso da internet essa diferença tornou-se
imensa; exatamente pela rapidez com que as transformações
estão ocorrendo e pela perspectiva de novas e contínuas
transformações que estão por vir em ritmo cada vez
mais acelerado.
Acredito, portanto, que com o advento da revolução digital
foram sepultadas algumas antigas discussões nesse campo, porém
outras novas apareceram, até a propositura de quebras de paradigmas.
Isso é tão forte que a questão do diploma para o
exercício do jornalismo, uma luta histórica, está
ficando em segundo plano, em função da velocidade das transformações
no campo da comunicação pela introdução tecnológica.
DIZARD (1997) afirma que será indispensável aos jovens que
ingressam no mercado de trabalho de mídia entender essas novas
tecnologias, o quanto elas diferem das práticas antigas, como irão
afetar nossas vidas, pessoal ou coletivamente, num novo tipo de sociedade
da era da informação.
Para que isso aconteça na prática, várias influências
teóricas que sedimentaram conceitos em muitos profissionais do
ensino do jornalismo precisam ser revistas ou no mínimo atualizadas,
principalmente no caso da Escola de Frankfurt, bastante crítica
quanto às questões tecnológicas no campo do ensino
e estudo da comunicação.
Uma nova tecnologia
da comunicação como a internet permite aos acadêmicos
repensarem, em vez de abandonarem, definições e categorias.
Quanto à internet é conceitualizada como um mass medium,
o que se torna claro é que nem a massa nem o meio podem ser definidos
precisamente para todas as situações, sendo antes continuamente
rearticulados, dependendo da situação. A internet é
um mass medium multifacetado, isto é, contém muitas configurações
diferentes de comunicação.
Para STRAUBHAAR (2000, p. 15), ainda vivemos na época da clássica
definição do processo de comunicação desenvolvido
por Wilbor Schramm, a quem foi creditado como o fundador dos estudos de
comunicação de massas. Ele esmiuçou o processo de
comunicação em oito componentes maiores para criar o que
é conhecido como Source-Message-Channel-Receiver (SMCR).
Esses e outros fatores desestimularam o estudo da internet como meio de
comunicação de massa. No artigo The Internet as Mass Medium,
publicado em 1996, as pesquisadoras Merrill Morris e Christine Ogan já
alertam para a falta de interesse em estudar os fenômenos comunicacionais
na internet. Segundo elas, apesar de a rede ter se tornado um meio de
comunicação de massas, sendo mencionada, freqüentemente,
nos meios tradicionais e ser utilizada cada vez mais, os pesquisadores
quase a ignoraram. Acrescentam que se os investigadores continuarem a
agir dessa forma, ignorando o potencial de pesquisa em torno da rede,
as teorias que elaboram se tornarão menos úteis.
O computador enquanto
nova tecnologia da comunicação abre aos investigadores um
espaço para repensarem as suas teses e categorias, e talvez mesmo
para encontrarem novas perspectivas em relação às
tecnologias tradicionais de comunicação.
BASTOS (2000, p. 33) identifica que os estudos na área de comunicação,
geralmente, estão voltados e sempre se organizaram à volta
de um meio específico, como os jornais, por razões econômicas,
políticas e sociais, além de ser uma área de estudo
precisa, bem delimitada, suplantando, em número, as pesquisas sobre
rádio e televisão. Para o pesquisador português, “à
medida que a tecnologia muda e os meios de comunicação convergem,
como acontece no caso da internet, os teóricos têm de ser
mais flexíveis quanto às suas categorias de investigação.
Em parte, a internet passou-lhes ao lado por, no início, ter sido
construída em âmbito restrito”.
Segundo Francisco Ficarra, em artigo publicado na conceituada revista
sobre a pesquisa de comunicação, a Chasqui, afirma
que faz falta à
orientação da bagagem da experiência teórica
e prática do setor das comunicações sociais em direção
aos conteúdos multimidiáticos, sejam de tipo "online"
como de "offline".
A qualidade do conteúdo é o grande mistério oculto
das comunicações atuais, e é para aí que os
planos de ensino e os futuros profissionais do setor deveriam direcionar
suas principais áreas de interesse. Uma qualidade que, sem a teoria
nos planos de ensino, é impossível alcançar.
Revelando um cenário não muito animador, também no
Brasil, CORRÊA (1998) constatou que as universidades ainda estão
na tentativa de transportar os jornais-laboratório para a Web e
fornecendo poucos recursos didáticos, como disciplinas introdutórias
sobre informática, uso da internet e recursos multimídias.
Para a pesquisadora, essa situação
é insuficiente
para as necessidades amplas apontadas pela sociedade digital. E também
é claro que mudanças nas universidades dependem de variáveis
muito distantes da urgência necessária.
Contudo, toda essa demora em inserir conteúdos de mídia
digital na aprendizagem e realizar pesquisas mais aprofundadas sobre os
meios online, seja por desconhecimento ou por resistência teórica,
está levando os cursos de jornalismo a serem meros reprodutores
de procedimentos arcaicos e começarem a perder espaço para
um conhecimento proveniente da prática, do empirismo.
Eu não conheço muito sobre o caminho acadêmico, onde
se poderia obter a graduação universitária em jornalismo
e aspirar a um emprego como jornalista em uma publicação
online. Esse não é o caminho que eu segui para minha carreira
em jornalismo. O jornalismo permanece em um campo que está aberto
a recém-chegados e estranhos ao meio - tudo que realmente precisa
fazer é escrever o gênero que as publicações
querem publicar.
Pode-se aprender sozinho os conceitos básicos do jornalismo. Achar
e ler livros que são usados habitualmente por principiantes nos
cursos de jornalismo, para aprender sobre gêneros básicos
produzidos pelo jornalismo e a técnica para que eles sejam produzidos.
Os jornalistas online também podem aprender um pouco de elementos
básicos de Web: como usar a internet para pesquisar; básico
de HTML para produzir páginas, produção de áudio
e vídeo digital, além de técnicas de programação
se quer adicionar elementos multimídia. Obviamente, é necessário
desenvolver boas e básicas habilidades na escrita.
Percebendo que o caminho
para a solidificação de conceitos e práticas da comunicação
online pode, necessariamente, não passar por um banco de escola,
empresas de comunicação já estão realizando
cursos internos de treinamento, como acontece no Brasil, quando grupos
de comunicação treinam jornalista para a prática
em veículos tradicionais.
Steve Klein, sócio do Advanced Interactive Media Group (empresa
de serviços ao setor jornalístico) e professor de jornalismo,
afirma que a demanda por talentos se tornará tão grande
que as cadeias de jornais e companhias de novas mídias existentes
terão que criar cursos de treinamento para candidatos a empregos
que passarão parte maior de seu tempo na faculdade estudando tecnologia
da informação.
Nos próximos
anos, à medida que a tecnologia e o jornalismo passarem a se entrelaçar
de forma ainda mais estreita, será imperativo tomar medidas que
garantam que haja pessoas suficientemente treinadas em ambas as disciplinas
trabalhando nos serviços online. Tecnólogos competentes
são difíceis de encontrar hoje, porque existe grande demanda
por seu talento nesse momento de boom da internet. Tecnólogos capazes
igualmente de trabalhar como jornalistas serão sempre um achado
raro, de modo que as empresas jornalísticas deveriam criar programas
para desenvolver esse tipo de talento.
A razão para que as empresas adotem tal procedimento é que
a denominada Convergência de Mídias, na sociedade da informação,
tratada no capítulo 6 deste trabalho, segundo Joseph Straubhaar
e Robert La Rose, fará carreiras e empregos altamente voláteis,
assim como as companhias se reestruturarão continuamente para competir
numa escala global.
Muitas pessoas que
estão entrando no mercado de trabalho, hoje, têm quatro ou
cinco carreiras - não somente empregos, mas carreiras - no futuro.
Isso significa que o estudante que leva em consideração
uma carreira profissional no jornalismo, publicidade ou televisão
(ou ainda ciências da computação) eventualmente terá
que ter novas ferramentas para diferentes profissões - ou junta-se
ao 'have-nots' na sua camada mais baixa da sociedade da informação.
RAMADAN (2000, p. 147), que defendeu a tese intitulada Jornalismo na Era
Digital: construindo uma filosofia de Ensino, tem muitas perguntas sobre
alguns possíveis desdobramentos para a área do ensino do
jornalismo.
Estamos aptos a enfrentar
essa tarefa? Estamos abertos para refletir sobre nosso papel e para encarar
o aprendizado como processo contínuo - agora em ritmo acelerado
- junto com os estudantes? Somos capazes de compreender que o conhecimento
também não se acumulará de forma linear?
Aceitamos que a estrutura das escolas também não sustentará
métodos e currículos lineares, restritos a um conhecimento
específico? As formas de hierarquizar, registrar, armazenar e usar
o conhecimento acumulado, como conhecemos até há uns poucos
anos, estão se transformando. Se não buscarmos apoio na
Filosofia da Educação, certamente não daremos conta
dessas transformações.
Já DIZARD (1997, p. 20-21) não tem a resposta para todas
essas questões, porém afirma que para os estudantes que
planejam uma carreira na mídia as mudanças trazidas pelo
mundo digital oferecem uma intrigante mistura de esperanças e dúvidas
sobre suas opções, pois estão ingressando em um negócio
- a produção e distribuição da informação
- que se expande de maneira extraordinária.
Ao se prepararem para
carreiras na mídia, uma de suas poucas certezas é que irão
lidar constantemente com os impactos de mudança tecnológica
e com a demanda de envolvimento intelectual e habilidades acadêmicas
maiores.
Com certeza, uma das escolas mais avançadas no estudo e pesquisa
do jornalismo online é a USC's Annenberg School for Communication
(EUA). Por mais que no Brasil se diga que as realidades sócio-econômicas
entre Brasil e EUA são diametralmente opostas, fato constatado
na comparação entre os PIBs (Produto Interno Bruto) dos
dois países, não podemos ignorar as experiências e
ensinamentos dos americanos nesse campo.
Eles inventaram a internet e estão muito avançados na elaboração
de produtos digitais, portanto, podemos aprender com os seus sucessos
e erros.
Segundo OUTING (2002), a nova aproximação pela USC's Annenberg
School for Communication pode ser um novo olhar sobre o ensino do jornalismo.
Isso é escapar da especialização que tem marcado
o ensino do jornalismo por décadas.
Para o editor da CNET.com, ao invés de produzir graduados que são
adaptados somente para o jornalismo impresso ou jornalismo tv e rádio
ou jornalismo online ou profissionais de relações públicas,
a escola pretende produzir graduados capazes de trabalhar numa plataforma
cruzada.
De preferência,
o programa aponta para a transmissão de conceitos multi-plataforma
que possibilitem ao jornalista trabalhar confortavelmente quando for solicitado
em alguma coisa fora do seu dia-a-dia, como impresso ou repórter
online que tem a tarefa, por exemplo, de realizar um vídeo clip
para a transmissão na Web.
No Brasil, o desafio
de se conseguir ensinar e pesquisar sobre jornalismo online ultrapassa
o entendimento da importância do assunto. É um compromisso
que se encontra em poucas pessoas ou lugares. Um dos pesquisadores mais
interessados e que contribui para a discussão do tema é
o professor e jornalista Nilson Lage, da Universidade Federal de Santa
Catarina.
Com grande experiência profissional em mídias tradicionais,
Nilson Lage tem migrado com facilidade para os conceitos das práticas
digitais. Mesmo dizendo que não gosta de futurologia, ele indica
que os cursos de jornalismo devem caminhar por trilhas definidas e seguras:
incorporar, adaptar-se e contribuir para:
• desenvolver e viabilizar tecnologias de menor custo e maior eficiência,
capazes de permitir a difusão do jornalismo pelos países
do Terceiro Mundo, incluídos os da África, e sua interiorização,
em nações como a nossa;
• cuidar que isso ocorra em padrões técnicos elevados, de
modo a possibilitar o consumo e apreciação universal das
mensagens;
• preservar a língua nacional, buscando aliar os registros formal
e coloquial de linguagem, bem como a comunicabilidade e qualidade estética
dos produtos;
• perseguir uma noção de ética que, além de
destacar a responsabilidade dos veículos de comunicação
diante de direitos humanos individuais, atente às responsabilidades
sociais;
• desenvolver estreita vinculação com a pesquisa científica,
instrumento das transformações que poderão superar
os impasses do momento presente;
• aprender a lidar com dados primários utilizando as técnicas
estatísticas recomendadas pelo Professor Philip Meyer (em The new
precision journalism) (MEYER, 1993), de modo a criar alternativas de informação
para as fontes institucionais, públicas e privadas, o que significa
libertar-se da ditadura do press release e das versões interesseiras
agregadas à informação;
• usar esses recursos e a reportagem investigativa para expor problemas
reais, principalmente aqueles que estruturas de poder procuram esconder
ou minimizar;
• dispor das noções necessárias para a gestão
dos recursos humanos e técnicos envolvidos na produção
de informação, em organizações de todo tipo,
desde sindicatos e indústrias a veículos, principalmente
produtoras locais, regionais ou independentes;
• estudar e pesquisar a história recente, em seus aspectos políticos
e econômicos, centrando-se nos fatos e nas idéias relevantes
- não apenas aquelas que agradam, mas as que, afinal, tiveram e
têm importância.
LAGE (2001) defende
que parte substancial do ensino do jornalismo se faz, portanto, em laboratório,
com pequenas turmas, utilizando o computador e seus periféricos
como scanner e impressoras, além das ferramentas digitais como
câmeras de vídeo e foto, conexão à internet
e banco de dados. Somente nele, segundo o professor, é que se pode
experimentar as novas técnicas e desenvolver pesquisas pioneiras.
O professor, porém, sabe que para ter resultados positivos com
um programa desse tipo é preciso uma pós-graduação
específica, com linhas de financiamento à disposição
da produção do conhecimento, da ciência, e não
sob controle dos grupelhos que atualmente partilham entre si as verbas
públicas, como afirmou em sua palestra de abertura do 4º Fórum
dos Professores de Jornalismo, Campo Grande.
Outra pesquisadora, a professora Elizabeth Saad, também aponta
novas tendências conceituais que mudam o perfil do ensino do jornalismo,
pois, além das habilidades e conhecimentos tradicionais, a universidade
deve incorporar novas habilidades no dia-a-dia do estudante.
. uso de ferramentas
para reportagem assistidas por computador;
. uso da internet como fonte jornalística;
. construção de textos com o conceito de hipertexto (profundidade
e amplitude), levando a uma nova lógica/arquitetura da informação;
. ter forte noção de público e comunidade funcionando
como ponte;
. gerenciar uma diversidade de variáveis não-jornalísticas
que vão desde o espectro técnico até administrativo;
. criar uma ética, dentre outras.
Para registro, mesmo com resistências, a pesquisa sobre o impacto
da nova mídia tem sido estudada por alguns abnegados desde a sua
chegada no Brasil. O trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo
da ECA/USP realizado pelo, então, aluno Helio Gurovitz é
do segundo semestre de 1995.
Intitulado O jornal sem papel: uma proposta de jornalismo para a internet,
o trabalho é ousado, pois indica os 'dez mandamentos' para colocar
um website jornalístico na Web. Entre eles destacamos: Adotarás
um projeto gráfico. Válido até hoje o tal 'mandamento'
diz: É básico, mas sempre é bom lembrar. Todas as
páginas do jornal devem ter a mesma cara graficamente, de modo
a criar uma identidade a ser lembrada pelo leitor.
Nas empresas
jornalísticas
As empresas jornalísticas brasileiras, dependendo do setor de mídia
que atuam, seguem legislações específicas, como no
caso TV e rádio, que são concessões fornecidas pelo
Estado. Já o meio jornal tem assegurado, pela sua função
a serviço da educação, a importação
de papel
imprensa sem uma determinada carga de impostos. Já a internet não
tem nenhum tipo de legislação específica na área
de comunicação, só no campo das telecomunicações.
Mas falar de empresas jornalísticas é falar, necessariamente,
de um negócio como outro qualquer. A ilusão da função
social dessas fábricas de notícias só é tema
de discussão em alguns corredores dos cursos de jornalismo e comissões
do Congresso Nacional.
Na realidade, no mundo mercadológico, elas sobrevivem de receita
e têm despesas. Em uma conta simples, o que sobra é o lucro.
Dentro desse aspecto, descobrir qual é o modelo de negócio
no mercado do consumo de notícias online está sendo quase
uma nova ‘Corrida ao Ouro’. Durante esses últimos anos, as empresas
experimentaram vários tipos de projetos editoriais, poucos deram
o resultado esperado e o temor de experiências fracassadas no passado
ainda persiste.
A pesquisadora CORRÊA (1994) produziu uma tese de doutorado sobre
as modificações nas estruturas das empresas jornalistas
no que tange à produção e distribuição
da informação. Ela cita um artigo na revista americana da
Editor & Publisher, especializada no mercado editorial:
Nunca houve momento como esse na história da tecnologia: o momento
em que o hardware e o software foram envolvidos no poder das idéias.
E não é só isso, visões distorcidas no passado
sobre o futuro produziram alguns cadáveres. As falhas - videotexto,
acesso público, teletexto, acesso a cabo - conduziram alguns planejadores
à falsa conclusa: eram boas para se ter, mas não eram a
missão central.
Muitos fatores contribuíram para os insucessos no meio online,
porém o principal deles nunca é explicitado: a falta de
uma cultura digital na estrutura organizacional das empresas de comunicação,
tanto pelos proprietários quanto pelos empregados.
Grande parte desses casos, no Brasil, aconteceu com grupos de comunicação
que têm braços dos seus negócios na internet, como
portais e websites. Eles cometeram o erro de tentar reproduzir suas práticas
editoriais e comerciais empregadas nos veículos tradicionais, na
Web, contratando ou transferindo profissionais oriundos de outras mídias.
A transferência
de jornalistas de redações tradicionais para redações
online não foi encarada de modo completamente pacífico no
interior das empresas jornalísticas, quer sob o ponto de vista
meramente organizativo, quer sob a vertente da prática jornalística.
Alguns jornalistas da imprensa vêem os seus colegas online com uma
mistura de suspeição ("Eles vão tornar-me obsoleto?"),
ressentimento ("Eles vão descer os nossos padrões jornalísticos
e gastar o dinheiro do nosso departamento de notícias?") e
desdém ("O que eles estão a fazer é tecnologia,
não jornalismo”).
Um dos poucos estudiosos que mencionam esse ângulo sobre a questão
é BASTOS (2000, p.135). Para ele, o movimento provocado no interior
das empresas por conseqüência do avanço do jornalismo
digital suscitou abordagens de cunho sociológico, como a discussão
para entender exatamente o que a internet significa para a profissão.
“Editores e redatores discutem freqüentemente sobre a discórdia
que caracteriza as relações entre jornalistas digitais e
jornalistas das redações tradicionais dentro da mesma empresa.”
A divergência sobre a internet revelou-se, mais visivelmente nas
redações norte-americanas onde o mercado é bem maior,
mas não foi um fenômeno isolado. Já o design Mario
Garcia, do Instituto Poynter e autor do primeiro livro sobre a transposição
do planejamento gráfico dos jornais impressos para o design de
interfaces gráficas de websites de conteúdo informativo,
ficou surpreso com tal divergência.
Talvez uma das grandes ironias do novo meio é como facilmente é
mal entendido, especialmente pelos jornalistas da imprensa tradicional
que tendem ver as páginas de Web como 'inimigas'. Eu estou surpreso
pelo número de jornalistas, especialmente aqueles entre 40 e 50
anos, que decidiram que não terão nada para fazer na Web.
Também encontro designers de impresso, os melhores nesse campo,
que têm falhado em notar como eles poderiam ter um impacto nesse
novo meio.
Eu estou surpreso porque esses são os mesmos jornalistas que começaram
a usar terminais de computador para editar nos anos 70, do século
passado, e têm gasto muito do seu tempo à frente de uma tela
de computador.
As razões para tal comportamento dentro das redações
são as mais diversas, como explica BASTOS (2000, p.135). Entre
elas estão a internet como ameaça para os jornais, se é
um meio com expectativas de retorno duvidosas, se realmente interessa
enquanto meio de publicação jornalística ou se apenas
constitui uma moda passageira. Porém, OUTING (2001) não
entra nessas questões, se elas são plausíveis ou
não. O jornalista afirma que o problema consiste em mera adaptação
ao novo meio.
Os jornalistas mais
jovens provavelmente se adaptarão mais facilmente do que os grisalhos
veteranos. Os novos graduados em jornalismo freqüentemente treinaram
como trabalhar bem notícias seja em ambientes da velha ou nova
mídia. adaptando-se a rotinas de redação que requerem
uma variedade de habilidades. Para os jornalistas mais antigos, as empresas
precisam estabelecer um programa de treinamento.
Num relato histórico obtido pela pesquisadora VIANNA (1992), na
sua investigação sobre a informatização da
imprensa brasileira, ela revela que essa transição não
será fácil. O jornalista Cláudio Abramo, responsável
pelo sucesso editorial da Folha de S. Paulo na segunda metade dos anos
80, é definitivo nesse ponto.
A informatização
impôs mudanças profundas no método de trabalho dos
jornalistas mais antigos, habituados à máquina de escrever.
Cláudio Abramo, conhecido como o homem que transformou a Folha
de S. Paulo, deu um depoimento sobre as perspectivas de desemprego na
classe jornalística:
“Para mim, o problema se coloca em vários níveis. Um de
comportamento pessoal, outro de categoria profissional, de homem dentro
da sociedade e por aí afora. Eu, como profissional, sou contra
bater uma coisa numa máquina, e que vai direto ao computador, porque
isto tomará emprego de alguém. Mas, até aí,
deve-se chegar a um acordo. Devo dizer, entretanto, que a maioria das
pessoas que reage o faz por espírito conservador mesmo, e não
por solidariedade a uma classe. Eu acho que a introdução
do computador, hoje, se tornou indissociável da vida moderna. Você
não pode mais tirá-lo. Pode até tirar o petróleo,
mas o computador não.”
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